quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

TEXTOS DISCUTIDOS EM HTPC 25/02

A questão afetiva e cognitiva na prática educativa

Cipriano Carlos Luckesi



Muitas vezes, temos nos debatido entre dois focos da prática educativa: o cognitivo e o afetivo. Tradicionalmente, na educação moderna (séc. XVI ao XX), temos privilegiado a formação lógica da mente, através dos conteúdos científicos, na crença iluminista de que “conhecer é poder”. E aqui o termo “conhecer” refere-se ao conhecimento cognitivo considerado “certo”. Foi com esse olhar que realizamos a educação predominante nas escolas dentro do período considerado da modernidade.

Já mais para a segunda metade do século XX, com predominância no seu final, e nestes primeiros anos do início do século XXI, temos questionado criticamente esse foco da prática educativa tradicional, propondo, a necessidade de voltamos nossa atenção para a afetividade. Então, foram debatidos e continuam a sê-lo em muitos lugares temas, tais como “emoção e razão na prática educativa”; “afetividade e escola”; “educação emocional”, e outros assemelhados.

Por vezes, nesse processo, exacerbamos nossas considerações para um ou outro lado. A educação tradicional exacerbou para o cognitivo, chegando ao estremo de trabalhar com súmulas de conhecimentos, que eram repetidas pelos estudantes, mas sem a sua devida compreensão (aprendizagem de memória). Como se, com isso, o educando pudesse se desenvolver, chegando ao que o professor Paulo Freire denominava de “educação bancária”. Por outro lado, na reação recente a esse foco da educação, por vezes, temos chegado ao outro extremo de considerar que somente o afetivo interessa. Diz-se, então, que o cognitivo será adquirido ao longo da vida e na medida do necessário; o que importa é estar atento ao fenômeno da afetividade.

A meu ver, os dois extremos distorcem o melhor da prática educativa. O ser humano não é nem cognitivo nem afetivo, ela é se apresenta fenomenologicamente como um todo, onde se dão a cognição, a afetividade, a motricidade, a corporeidade, e mais outros fatores, que aqui não necessitamos de elencar. O ser humano é um todo e funciona como um todo. Nós, no nosso limite de compreensão, que opera por facetas, é que necessitamos de separar afetividade ou cognição, ou qualquer outra característica, em função de constituir nosso entendimento e, conseqüentemente, nosso foco de ação. Nossa compreensão opera por facetas e, a partir daí, acreditamos que a realidade é facetada, mas não o é; ela é um todo e funciona como um todo; só para nosso entendimento disciplinar (ciências específicas) ela é separada.

De fato, para operar nossa capacidade de conhecer, necessitamos que nossos afetos nos permitam. Ninguém de nós consegue fazer bem alguma coisa --- seja no estudo, na pesquisa, em nossas prática cotidianas domésticas, profissionais, de relacionamento... ---, caso nossa afetividade não nos permita, caso ela não se abra para o que está à nossa frente, seja lá o que for. Com o coração fechado, não conseguimos fazer nada com qualidade; não conseguimos nem mesmo dormir, caso estejamos necessitando dessa experiência. Vou para a cama, mas de má vontade; então, o sono não poderá ser bom e reparador. E, assim, qualquer outra coisa: namorar, dar aulas, preparar uma refeição, ir ao cinema, manter uma conversa com um amigo, ir a um passeio. Qualquer coisa que se faça, sem a abertura do coração (da afetividade), não será bem feita, pois que o coração não estará lá. A filosofia evangélica diz que “onde estiver seu coração, ai se encontrará o seu tesouro”. Don Juan, em Carlos Castañeda, nos diz que uma ação, sem coração, não tem caminho. Essa é a permissão da afetividade.

O cognitivo não se dá de uma forma satisfatória sem esse pano de fundo da afetividade. Para que o estudante aprenda, ou para que nós educadores aprendamos, importa que a nossa afetividade e a do nosso educando nos disponibilize para o aprender: “eu desejo aprender”, “gosto de aprender”, “estou disponível para aprender isso”; “tenho interesse nisso”, “tenho prazer em aprender isso”, “meus olhos brilham quando compreendo uma coisa nova”... Sem essa abertura afetiva, dificilmente alguém aprenderá efetivamente alguma. Mais que isso, sem ela, não se fará nada com satisfatoriedade, nem no trabalho, nem na vida pessoal, nem nos relacionamentos, nem nas experiências do sagrado... em lugar nenhum.

Assim sendo, afetividade e cognição não são dois elementos separados e opostos, como por vezes, são apresentados, mas facetas do mesmo todo. Em nossa prática educativa, acredito que deveríamos agir, junto aos nossos educandos, dando suporte para que aprendam a integrar esses dois fatores, entre outros, em sua vida. Qualquer coisa que fizerem, e que também nós fizemos, será bem feita, se nosso coração e o dos nossos educandos estiver lá. Sem essa integração, a cognição ou qualquer outra coisa não será significativa para nossa vida ou para a vida dos outros.

Com isso, eu estaria defendendo que a afetividade é mais importante? Não! Somente estou lembrando que ela é o pano de fundo para qualquer ato significativo e vital de cada um de nós assim como de nossos educandos. A cognição é profundamente necessária; caso contrário, não teríamos a compreensão de nada nem desenvolveríamos tecnologias que produzissem bens para suprir nossas necessidades, sejam elas quais forem. Mas, ela se assenta sobre o portal da afetividade, que nos permite fazer bem o que fazemos. Deste modo, nem privilegiar a cognição nem a afetividade. Cada uma delas, com suas propriedades, tem seu papel significativo na vida humana e, por isso, necessitam de ser tomadas em consideração na prática educativa.

Para assim agir, nós educadores necessitamos de, na melhor medida do possível, integrar em nós mesmos afetividade e cognição, tendo em vista ajudar nossos educandos a fazer essa mesma trajetória. Dificilmente, seremos capazes de ajudá-los nessa trajetória, caso já não estivemos chegado um pouco mais à frente do que eles nisso. “Ninguém dá o que não tem” diz o ditado popular e a física clássica diz que “a toda ação se dá uma ação de mesma proporção”. Como dar suporte para o florescimento da afetividade dos nossos educandos como pano de fundo para a ação, se nós não tivermos cuidados com ela?

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